Alquimista Mundano

19/02/2004 11:15
QUEREMOS ESTRELAS!!!!

Não posso fugir do assunto do momento: celebridades. Podem fechar o browser se quiserem, achando que vai ser "ainda mais um artigo sobre fama". E é mesmo. Mas de um prisma muito único.

Em 1992, um bando de jovens despretensiosos de Seattle encheram o saco do glamour e dos excessos que estavam associados ao rock. Sabiam que não precisavam de glitter e cabelos mais bem cuidados que os da Adriana Esteves para fazer rock de verdade. E, de fato, precisar ninguém nunca precisou. A nova imagem do rock era despojada e até meio feia. Mas tinha um frescor de espontaneidade do qual o rock jamais saiu.

A regra, desde então, é usar camisa básica, ser despretensioso e não agir como estrela. Vocais agudíssimos, desafiando os limites do tolerável (ou da Whitney Houston) são motivo de chacota, assim como solos de guitarra cheios de efeitos e milhares de notas por segundo. Tudo que, não só na imagem, mas mesmo sonoramente arremeta aqueles tempos de "glam metal" acabou. Ficou restrito àquele pequeno gueto da turma que curte metal melódico - onde a técnica está presente até demais, tornando as músicas verdadeiras olimpiadas da técnica. Ou seja, chatíssimas.

O rock deixou de gerar stars, e o espetáculo acabou. Hoje, o que guia as grandes massas nos EUA - e todo mundo que é guiado pelas modas aqui, também - é o rap. Erroneamente chamado de hip-hop, termo que engloba toda a cultura negra adjacente ao rap, este gênero musical começou como forma de protesto e expressão de uma minoria revoltada.

Desde sua origem, no final dos anos 70, até hoje, o rap mudou muito. Surgiu uma vertente - o gangsta rap - que exaltava a bandidagem e fazia duras críticas às autoridades policiais. Essa linha, curiosamente, encontrou ecos no rock nacional do Rappa, do Pavilhão 9 e do Planet Hemp. Para artistas como estes, o policial ainda representaria uma força de autoridade branca, opressiva, que continua até hoje a ver o negro como escravo. Não sou eu quem diz isso: o Rappa tem uma música chamada "Todo Camburão tem um Pouco de Navio Negreiro"...

Mas, nos EUA, até isso foi superado. Os rappers se tornaram super astros e seus clipes são odes ao luxo e a um hedonismo sem limites. Ao invés de continuar a lutar por seus irmãos menos glamourosos nos guetos, os rappers americanos usam e abusam do tal do "culto da personalidade" para se promoverem como super-heróis da consciência negra. Seus louváveis atributos? Gostar de jóias, carrões e mulheres.

E não é que são justamente atributos bastante similares aos ostentados pelos cabeludos do final dos anos 80, início dos 90? E se o lema do excesso era "sexo drogas e rock n´ roll", não seria a máxima contemporânea "sexo, grana e rap"?

O que estou tentando demonstrar aqui é que, a despeito de meu gosto pela sagrada tríade do grunge - Soundgarden, Nirvana e Pearl Jam - a atitude deste movimento minou o poder do rock para todo sempre. O rock deixou de ser a música da juventude, e os roqueiros não são mais ídolos. Os solos de guitarra acabaram, e, dizia uma matéria na Veja, "as guitarras não são mais símbolos fálicos".

Onde tudo isso leva? À uma enorme pobreza musical. A despeito do que Adorno possa ter falado sobre a pobreza da música popular, o rock sempre foi muito mais rico do que o rap. Para começar, o rock tem melodia!!! Tenho muito respeito ao rap verdadeiro, aquele que ainda protesta e representa uma luta político social das mais respeitávels, mas musicalmente, ele é fraquíssimo. Mas a batida, o ritmo, tem um poder agregador - pela dança - enorme. Aliás, que fique bem claro meu respeito ao rap nacional: a turma do ritmo e poesia brazuca ainda não se corrompeu pelo sucesso, e sinceramente duvido que isso vá acontecer. Aqui, o buraco é mais embaixo.

O que eu quero dizer é que, apesar da fuga do estrelismo dos roqueiros, o povo sempre quis isso, e sempre vai querer. O povo quer se tornar massa, quer ser o anônimo que vai venerar aquele que se destaca. Prova disso é que os rappers são admirados, e tenho certeza que seus excessos têm muito a ver com isso.

Não adianta subir num palco e fingir que você é apenas mais um, porque não é. Subiu no palco, já era: você está mudado para sempre. Assumiu um arquétipo - louco, rei, guerreiro, amante, não importa qual - e deve interpretá-lo com a maior conpetência possível. O que não significa deixar de ser você mesmo. Pelo contrário. Só pergunto: por que não assumir logo a posição de pessoa notória e caminhar a trilha do glamour por inteiro?
enviada por Pedro, o Alquimista






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